O
Admirável Mundo da Televisão
O exemplo
mais claro desse novo mundo é a rede americana de televisão CNN (Cable News
Network), especializada em divulgar notícias internacionais 24 horas por dia e
simultaneamente em quase todos os países do globo terrestre. A CNN constitui um
fenômeno característico da história contemporânea. Ela talvez seja uma das
expressões mais completas, mais sofisticadas e mais poderosas da
pós-modernidade, naquilo que ela apresenta de excesso (de informação, de velocidade,
de eficácia, de simulação) e de falta (de sentido, de profundidade, de
pensamento, de materialidade).
A
CNN, como se sabe, está em quase todos os lugares o tempo todo. Ela é vista, em
média, por um milhão de pessoas. Quantitativamente, não é muito. Mas seus
telespectadores são as pessoas mais influentes do planeta (políticos,
economistas, intelectuais, artistas, líderes religiosos). E a CNN, além disso,
vende suas reportagens a outras redes de televisão e a jornais. Esse,
precisamente, é o seu ponto forte. Não estou falando de uma audiência
numericamente poderosa, como por exemplo, os milhões de telespectadores da
GLOBO. Trata-se, aqui, de um número relativamente reduzido e seleto de pessoas
que puderam, por interesse profissional ou curiosidade, comprar os serviços prestados
pela rede através da comunicação por cabo.
A
televisão forma opiniões por meio de um sofisticado processo multiplicador,
garantido pela repercussão que suas imagens obtêm quando filtradas por esse
público influente. O impacto visual das cenas apresentadas, a rápida sucessão
de imagens oriundas de vários países, que monstram o planeta como um grande
palco unificado. Tudo isso associado a um discurso aparentemente “objetivo” e
distanciado dos repórteres e apresentadores, recria cotidianamente o mundo
segundo uma certa ordem que é imediatamente metabolizada e passada adiante.
Essa Ordem obsorvida pelo
telespectador não passa, em geral, por nenhuma crítica. A televisão não é como
um livro, ou sequer como um jornal impresso, cuja leitura podemos interromper,
refazer, submeter a reflexões demoradas. A dinâmica da imagem solicita
respostas imediatas de quem a ela esta submetido. As reações são reflexas,
rápidas. Esse mecanismo é muito eficaz quando se trata de manter oculta a
estrutura do texto ou a concepção que está na base da disposição segundo a qual
as imagens são apresentadas.
Neste
sentido, vivemos uma época em que a notícia virou uma telenovela, cujo palco é
o planeta e cujos atores são escolhidos por um enredo que alguém escreveu e que
é decifrado e decodificado pela câmera de relevisão. Como na telenovela, o
maior horror do mundo já não perturba, apenas dá uma impressão de algo já
visto. Os Estados Unidos invadiram o Haiti? Mas já fizeram isso antes tantas
vezes (no Panamá, no Golfo e na Somália). Há crianças morrendo de fome? Mas
quando deixou de ser assim? Há Crime, violência, corrupção? Sei. E aí?
Estranhamente,
o excesso de informação conduz a esse estado de desinformação, de redundância,
de não-registro das informações. É um estágio já mais avançado do que se
refere a banalização do mal.
É
a perda total de referências concretas, é perceber o mundo como se vivêssemos
numa espécie de suspensão hipnótica, com imagens que se sucedem sem realmente
afetar nossas vidas. Uma exterioridade que nos torna, a todos, estrangeiros.
Prof. Marcelo