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Autores: Fábio Costa Pedro e Olga M. A. Fonseca
Coulon.
História: Pré-História, Antiguidade e Feudalismo, 1989
INTRODUÇÃO
Do
aparecimento do gênero humano sobre a terra à invenção da escrita,
decorreu enorme período de tempo, denominado Pré-História, cujo princípio
e fim variam segundo as diversas regiões do globo.
A cronologia mais utilizada para o início
da Pré-História considera que os vestígios mais antigos do homem
primitivo datam de cerca de 2 000 000 de anos na África, de 1 500 000
anos na Europa e de 15 000 anos na América. Descobertas arqueológicas
recentes têm ampliado essas datas para 5 000 000 de anos na África e
40 000 na América.
O fim da Pré-História ocorreu
primeiramente em regiões do Oriente Próximo - no Egito e na Mesopotâmia
- por volta de 4 000 a.C., com a invenção da escrita ligada ao
desenvolvimento das primeiras civilizações. Na América, na África
Central e na austrália, o fim da Pré-História se deu com a conquista
dessas regiões pelos europeus a partir do século XV, portanto, bem
mais tarde.
A Pré-História foi dividida por
Lubock, em 1886, nas Idades da Pedra Lascada ou período Paleolítico e
da Pedra Polida ou período Neolítico, denominações referentes ao
tipo de instrumentos usados pelos homens em cada época.
Durante o Paleolítico, o mundo físico
e natural alterou-se profundamente e o gênero humano evoluiu no seu
aspecto físico, bem como modificaram-se seus instrumentos. Assim,
centenas de milênios decorreram entre o aparecimentos dos primeiros
seres que utilizavem seixos para obter grosseiros utensílios, e o
surgimento do Homo Sapiens- Sapiens, portador de ferramentas de pedras
elaboradas e diferenciadas.
No período Neolítico que sucede ao
Paleolítico, as variações climáticas e geológicas são bem
reduzidas; as grandes transformações da face da terra virão em função
da capacidade de o homem modificar o meio-ambiente. O Neolítico
iniciou-se há dez mil anos atrás, com a descoberta da agricultura, que
trouxe a sedentarização do homem, a domesticação dos animais, a
descoberta de técnicas como o polimento da pedra, a cerâmica e a
tecelagem.
À Idade da Pedra ou Pré-História,
seguiu-se a Idade dos Metais - bronze e ferro - caracterizada pelo
aumento da população e pelo uso de instrumentos de metal, que
determinaram o aparecimento de excedentes na produção agrícola. A
partir daí, desenvolveram-se as trocas, a escrita, o artesanato, a
divisão do trabalho, a propriedade privada e as classes sociais, dando
origem às cidades e à CIVILIZAÇÃO.
AS
ORIGENS DO HOMEM
Durante o período Paleolítico,
iniciado provavelmente a cerca de 2 000 000 de anos, os grupos humanos
surgiram, evoluíram e se espalharam na superfície terrestre, ligados
ao movimento das quatro grandes glaciações da era quaternária.
As glaciações são fases marcadas
por tempestades de neve, ventos violentos, frio rigoroso e
empobrecimento da cobertura vegetal da terra. Cada glaciação é
sucedida por uma fase interglaciária, mais úmida e mais temperada, que
se instala progressivamente e na qual a calota de gelo recua em direção
ao polo, a floresta reconstitui-se, os rios retomam seu curso e o nível
do mar sobe.
A extensão variável dos glaciares
condicionou os territórios onde os antepassados do homem podiam
circular(planícies, grutas, abrigos, praias, etc) e onde foram
encontrados fósseis e indústrias humanas. Nas regiões situadas fora
da influência glaciar(zona mediterrânea e África), a cronologia climática
baseia-se na alternância de fases úmidas e áridas.
É difícil elaborar-se um quadro
satisfatório da evolução humana, visto que não existem registros
arqueológicos completos. Atualmente aceita-se o seguinte esquema básico
de evolução: há uns 7 milhões de anos, de um grupo de driopitecos(também
chamados "procônsules) separou-se o grupo dos ramapitecos, que
constitui a "ponte para o homem" e sobre os quais existem
pouquíssimos achados arqueológicos. A eles sucederam-se quatro estágios
de hominídeos: o australopitecídeo, o pitecantropóide, o
neandertalense e o moderno.
O estágio australopitecídeo,
iniciado talvez há uns dois milhões de anos, inclui achados fósseis
que podem ser reunidos em dois grupos: os pequenos australopitecos e os
grandes australopitecos ou parantropos.
Os
pequenos australopitecos eram bípedes, mediam cerca de 1,20m e pesavam
entre 25 e 50 quilos, com capacidade craniana média de 500 cm3 . Seus
primeiros fósseis foram encontrados na garganta de Olduvai, Tanzânia,
n África, junto a seixos grosseiramente trabalhados à mão.
A postura vertical trazia a vantagem de libertar as mãos para a
manipulação; a associação dos movimentos das mãos com os olhos
estimulava o cérebro. Assim, o bipedismo constituiu uma base para as
habilidades culturais.
Aos australopitecos pequenos
sucederam-se os australopitecos grandes ou parantropos, do tamanho de
homens moderno, porém com o cérebro de 600 cm3. Foram encontrados em
Olduvai e no Saara, na África e em Java, na Indonésia. A passagem do
estágio australopitecídeo ao estágio pitecantropóide é um problema
que cobre um vazio de achados fósseis de 1,25 milhões de anos. Deste
período existem achados de pedra, mas não de ossos.
Depois
dos australopitecos, os fósseis encontrados foram classificados como
pertencentes ao estágio pitecantropóide. Os primeiros pitecantropos ou
"homo erectus" datam de cerca de 500 000 anos e foram
descobertos em Java (Indonésia), Pequim (China), Heidelberg (Alemanha),
Tenerife (Marrocos, Olduvai (Tanzânia) e na Hungria. Viveram na Segunda
fase interglaciária e seu cérebro possuía capacidade craniana média
de 1 000 cm3.
Os pitecantropos conheciam o fogo,
fato que lhes permitia habitar em cavernas e prolongar o período das
atividades, antes limitado pelo cair da noite. Nas cavernas onde
moravam, inclusive em lugares muito frios como na Europa, foram
encontradas boas quantidades de carvão acumuladas, indicando que várias
gerações deles acendiam foguerias. Eram carnívoros, andarilhos e
praticavam a caça de rastreio.
Proporcionando luz para habitar as
cavernas, calor para enfrentar climas mais frios e um método para
preservar a carne, o fogo representou uma grande revolução na cultura
dos hominídeos. E com sua ajuda, provavelmente iniciaram a migração
pelo planeta, visto que os hominídeos do estágio pitecantropóide só
não foram encontrados na América e na Austrália. Depois dos
pitecantropos, há uma nova lacuna paleontológica de mais ou menos 400
000 anos. Só então começam a aparecer os esqueleos do homem de
Neandertal. 
Os neandertalenses viveram entre 100
000 e 40 000 anos atrás e possuíam uma capacidade cereberal próxima
à do homem moderno. Eles poderiam ser descritos como possuidores de uma
caixa crianiana moderna e uma face próxima à dos pitecantropos.
Talhavam a pedra com perfeição e praticavam ritos funerários
enterrando seus mortos. Descobriu-se que um esqueleto dessa espécie,
desenterrado em Shanidar, foram recoberto com oito espécies diversas de
flores. Ora, isso demonstra a existência de ritos conscientes, além de
uma vida social organizada tal qual a das tribos primitivas de homo
sapiens-sapiens.
Os esqueletos sucessivos aos
neandertaleneses ssão denominados de Cro-Magnon ou Homo
sapiens-sapiens. Foram encontrados numa localidade da França que lhes
deu o nome, a cerca de 35 000 anos, no Paleolítico superior. O uso de
instrumentos de caça provavelmente ativou o desenvolvimento do cérebro
e a redução das mandíbulas e dos dentes até então usados como
ataque e defesa.
O homem de Cro-Magnon é o nosso
antepassado direto. Vestido como um homem atual, ele seria indistinguível
nas ruas das cidades. Possuía estatura elevada e capacidade craniana de
1500 cm3 em média. Desenvolveu a linguagem articulada, fazia
instrumentos especializados para a caça e a pesca e criou a arte
rupestre e a escultura.
Com o aparecimento destes primeiros
seres modernos, a história física do homem se transformou na história
de suas raças: pequenas subdivisões internas que começaram a se
formar graças ao isolamento geográfico e ao "genetic drift".
A Aldeia Neolítica

AS COMUNIDADES PRIMITIVAS DE CAÇADORES
E COLETORES
Os homens de Cro-Magnon viviam ao ar
livre, em bandos nômades. Desde cedo aprenderam a cooperar uns com os
outros, para obter o alimento necessário. Distinguiam-se de seus
antecessores por seu aspecto físico e por serem caçadores
especializados, que faziam armas de pedra, marfim e osso.
Através de golpes no sílex (rocha
dura), produziam lâminas ou lascas estreitas, a partir das quais
surgiam facas, pontas de projéteis montáveis em cabo, raspadoras que
possibilitavam a produção de lanças, arpões, dardos, bastões
perfurados para trabalhar o couro, perfuradores e agulhas para costurar
roupas.
Praticavam uma economia coletora de
subsistência: dependiam da caça, da pesca e da coleta, pois ainda não
haviam aprendido a produzir os alimentos. Realizavam caçadas às
manadas de mamutes, renas, bisões, bois e cavalos selvagens. Colhiam
tudo que lhes pudesse servir de alimento: sementes, nozes, castanhas,
frutos, raízes, mel, insetos, ovos, moluscos e pequenos animais.
Havia uma rudimentar divisão do
trabalho segundo o sexo: tarefas que cabiam ao homem, à mulher, à
criança, ao velho. A liderança natural do bando era exercida pelo mais
forte. O conhecimento e as experiências adquiridas eram transmitidos
coletivamente e incorporados à tradição comunitária, como, por
exemplo, as melhores estações de caça, a distinção entre plantas
comestíveis e venenosas, a escolha das melhores pedras para se fazer
ferramenta e a observação das fases da lua.
As cavernas naturais e as habitações
rudes feitas de galhos de árvores constituíam as mroadias dos homens
do Paleolítico. Cada um deles possuía apenas os seus utensílios e
ferramentas de uso pessoal. As florestas, os lagos e os rios eram usados
e usufruídos coletivamente pelo grupo, que vivia em regime de
comunidade primitiva. Nômades, os bandos de homens primitivos mudavam
de região constantemente, impelidos pelas variações climáticas ou à
procura de novas áreas de caça e de rios mais piscosos.
Dentre suas práticas espirituais,
destacavam-se os ritos funerários, nos quais os mortos eram enterrados
com seus adornos e utensílios, e os ritos mágicos destinados a
assegurar o abastecimento de alimentos e de caça. Para isso, faziam
pinturas nas paredes das cavernas, representando animais como mamutes,
bisões ou renas. Executavam também esculturas em pedra de figuras
femininas, com significativas deformações: seios grandes e enormes
ventres, que simbolizavam a fertilidade, a fecundidade e a abundância.
O fim das glaciações permitiu o
aparecimento de novos tipos de comunidades, em regiões como o Oriente
Próximo e o Oriente Médio. Trabalhando com a natureza, ao invés de
somente explorá-la, essas comunidades concretizaram a chamada
"revolução agrícola" do período Neolítico.
AS ALDEIAS DE
AGRICULTORES E PASTORES
A passagem do Paleolítico para o Neolítico
se deu aproximadamente entre 10 000 e 8 000 a.C., com o fim das glaciações.
A vida nômade baseada na caça, na pesca e na coleta de alimentos foi,
aos poucos, substituída por uma nova sociedade em que o homem praticava
a agricultura, domesticava os animais, desenvolvia a cerâmica e a
tecelagem, usava ferramentas especializadas de pedra afiada e polida e
vivia em aldeias.
Adquirindo maio domínio sobre a
natureza e melhor conhecimento das leis de sua reprodução, o homem
adquiriu um controle sobre as fontes de alimentação, aumentando, assim
o número de pessoas que podia viver numa mesma área. Tudo isso
caracterizou uma verdadeira revolução na vida do homem - a revolução
agrícola.
O APARECIMENTO DA AGRICULTURA
Os primeiros estágios da agricultura
iniciaram-se quando os homens, pela observação, passaram a compreender
cada vez mais a respeito das plantas e dos animais que usavam como
alimento. Verificaram que ao caírem as sementes no chão, nasciam e
cresciam as plantas. Gradualmente, tornaram-se experientes no cultivo do
trigo, da cevada, de tubérculos, de frutas e hortaliças, e hábeis em
semear, ceifar, armazenar e moer.
Provavelmente, foi domesticando os filhotes dos animais que haviam
matado, que os homens aprenderam a criá-los. Passaram a ter rebanhos de
bois, carneiro, cabras, porcos, utilizando suas peles, carne e leite. A
abundância de lã e de linho tornou possível a tecelagem.
Da observação da terra endurecida ao
redor do fogo, nasceu a cerâmica e a olaria. Potes, vasos e outros
recipientes passaram a ser largamente utilizados para armazenar a água
e os alimentos e para cozinhá-los. Ornamentados, esses objetos
tornaram-se importante manifestação da arte neolítica.
A agricultura era praticada de forma
bastante rudimentar, exaurindo rapidamente o solo e obrigando os homens
a constantes mudanças. Estes estavam agora organizados em tribos,
vivendo em cabanas de madeira e barro, que formavam as aldeias.
A ALDEIA NEOLÍTICA
Os arqueólogos acreditam que os
primeiros agricultores e pastores viveram por volta de 8 000 a.C., nos
vales aluvionais do Oriente Próximo. Por volta de 6 000 a.C., as
comunidades agrícolas haviam se propagado através de todo o sudoeste
da Ásia e sul da Europa, espalhando-se também pelo norte da África.
Pesquisas arqueológicas encontraram restos de antigas aldeias em Jericó
na Palestina, em Qalat-Jarno na bacia do rio Tigre e em Tell-Hassuna no
Iraque.
Com a agricultura, a terra das aldeias
se tornou de uso comum dos clãs e era lavrada coletivamente, assim como
os rebanhos, os celeiros, as pastagens e as cabanas. De uso individual
permaneceram os apetrechos de caça, os utensílios de cozinha e o vestuário.
Tudo aquilo que se produzia era partilhado equitativamente dentro de
cada grupo, havendo trocas entre as aldeias apenas em ocasiões
especiais, tais como casamentos ou funerais.
Mesmo sendo ainda de subsistência,
existia agora uma economia produtora de alimentos e não mais apenas
coletora.
O trabalho tornou-se então uma atividade constante e coletiva, que
mobilizava toda a aldeia: era preciso drenar pântanos, controlar as
enchentes dos rios, limpar florestas, semear os campos, pastorear o gado
etc. A divisão do trabalho estava diretamente relacionada com o sexo:
as mulheres deviam arar o solo, moer e cozinhar os grãos, fiar, tecer,
fabricar os potes e os ornamentos; a limpeza do terreno para o cultivo,
a construção das habitações, a criação do gado, a pesca e o
fabrico de ferramentas e armas eram as tarefas masculinas.
Os aldeamentos eram formados de habitações
pequenas, circulares ou quadradas e sempre de material precário,
diferindo conforme a região. Próximo às florestas, erguiam-se cabanas
construídas de troncos, próprias das comunidades de caçadores e
pastores. Sobre as águas dos lagos e rios, elevavam-se as palafitas dos
pescadores.
Durante o período Neolítico, foram
edificados os monumentos "megalíticos"(mega = grande; ithos =
pedra), entre os quais se destacam os menires (enormes pedras de até 23
metros de altura, encravadas verticalmente no solo) e os dólmens (duas
ou mais pedras fincadas no chão, cobertas por outras em posição
horizontal, formando uma espécie de mesa). Esses monumentos
provavelmente serviam de culto aos mortos ou para cerimônias em honra
às forças da natureza.
A aldeia neolítica era
auto-suficiente com a população se ocupando em atividades agrícolas,
de pastoreio, de tecelagem e na produção de utensílios de cerâmica,
de armas e de ferramentas de pedra polida, utilizados na própria
aldeia. Sua economia era pouco diversificada e suas técnicas,
rudimentares. AS
PRÁTICAS
ESPIRITUAIS
A grande dependência que os homens do
Neolítico tinham da natureza e os precários conhecimentos sobre a
agricultura, o pastoreio e a reprodução deram origem a crenças e
ritos mágico-religiosos, que aparentemente tinham o poder de garantir
as colheitas e as caçadas abundantes. Ninguém do grupo podia
desrespeitá-los, sob pena de severas punições, pois ir contra os
"misteriosos" poderes que controlavam a fertilidade do solo e
a procriação das mulheres e dos animais significava colocar em risco a
sobrevivência de toda a comunidade.
Alguns clãs e tribos se diziam
descendentes de determinados animais ou vegetais, que eram venerados
pelo grupo caracterizando o fenômeno do totemismo. O tótem podia ser
uma ave, um peixe, uma planta ou outro elemento da natureza; era
considerado sagrado e símbolo do grupo. As cerimônias rituais e mágicas
eram exercidas por "feiticeiros" que os membros da aldeia
julgavam possuir poderes originais e que passavam a desempenhar também
atividades de chefia e liderança.
Por volta de 4 000 a. C.,
principalmente nos vales dos grandes rios como o Nilo, o Tigre, o
Eufrates, o Indo e o Ganges, os homens tiveram necessidade de se
organizar melhor, a fim de obter uma maior produtividade agrícola.
Desenvolveram técnicas de irrigação e criaram ferramentas de bronze,
utilizando o cobre e o estanho, mais eficazes para o trabalho.
A agricultura passou a gerar
excedentes, permitindo a sua troca por matérias primas indispensáveis.
A população aumentou; agora, um maior número de indivíduos podia
viver numa mesma área dedicando-se a outras atividades que não o
plantio e o pastoreio. Assim, as aldeias neolíticas transformaram-se em
cidades, com profissões, classes e governo.
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